A consciência tem sido um dos conceitos mais debatidos e controversos do pensamento contemporâneo. Debatido por causa de sua centralidade. Da replicação de organismos artificiais, da elaboração de Inteligência Synthetic (IA) e da criação de sistemas complexos autónomos à descrição mais abrangente de praticamente todas as actividades dos seres vivos, humanos e não-humanos, nada escapa aos imperativos da consciência. Compreender sua natureza e sua dinâmica seria decisivo para um desenvolvimento da compreensão dos seres vivos em todos os seus âmbitos.

Rodrigo Petronio (autor do texto), é escritor e filósofo. Professor titular da FAAP, desenvolve pós-doutorado no Centro de Tecnologias da Inteligência e Style and design Digital (TIDD|PUC-SP)

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Polvo pode oferecer pistas para desvendar o mistério da consciência

O conceito contudo não deixa de ser controverso: quanto mais os filósofos e cientistas estudam a consciência, menos conseguem definir o que ela venha a ser. E, para piorar a situação, quase tudo que designamos como consciência poderia muito bem ser traduzido em termos quantitativos e não qualitativos. Ou seja: a consciência seria apenas uma outra palavra para designar uma inteligência super-desenvolvida.

O filósofo Peter Godfrey-Smith, professor de história e filosofia da ciência na Universidade de Sidney e professor emérito de filosofia na Metropolis University de Nova York, acaba de oferecer mais algumas alternativas a esse quebra-cabeças. A obra Outras Mentes: o Polvo e a Origem da Consciência, que a editora Todavia acaba de publicar no Brasil, nasceu clássica.

Trata-se de uma das contribuições mais engenhosas e brilhantes a esse debate. A obra é tão repleta de informações e intuições contra-intuitivas e originais que chega a ser difícil resumi-la. Ademais, além de académico, Godfrey-Smith é também mergulhador. Há décadas vive em um diálogo amoroso com lulas, polvos, chocos e outros seres das profundezas das costas da Austrália. Aprendeu a compreender os cefalópodes tanto na teoria quanto no experience a confront.

O universo tem 13.seven biliões de anos. A Terra tem cerca de four.five biliões de anos. A vida na Terra começou há 3.8 biliões de anos. Os primeiros animais datam de one bilião de anos. Nessas eras geológicas, o Ediacarano recobre um período que vai de 635 a 542 milhões de anos. O Cambriano começa por volta de 600 milhões de anos. Essa teia elementar da vida aquática conduz aos vertebrados, aos mamíferos e, finalmente, aos humanos. Isso quer dizer que a vida começou no mar. E a origem da mente são os oceanos.

A teoria da evolução de Darwin pode ser pensada de diversas maneiras, menos como teleologia (linha recta). Os seres vivos se dividem em espécies por meio de leis como a adaptação, a selecção, a especiação, a mutação, e mediante as ações do acaso e da necessidade. Alguns filósofos se valem da metáfora do rizoma para descrever este processo: a proliferação de raízes dos tubérculos. Contudo a imagem da árvore continua sendo eficiente.

Como resposta à pressão adaptativa do meio, os grupos dos seres vivos que sobrevivem à selecção all-natural se diversificam e tornam mais complexos. Ao longo de milhões e mesmo biliões de anos, essa complexidade gera novos ramos. Estas novas espécies-ramos que se originam de um mesmo galho-género coexistem, seguem paralelamente e se transformam em outros galhos-géneros. Estes, por sua vez, originarão novas espécies-ramos.

O ancestral comum a aves e a mamíferos seria parecido com um lagarto e viveu há cerca de 320 milhões de anos. Se recuarmos mais, o ancestral comum a aves, a mamíferos e ao polvo seria uma criatura achatada que viveu no começo do Cambriano. Isso quer dizer que a separação entre o que virtualmente viriam a ser os humanos e os polvos nessa árvore da vida ocorreu há cerca de 600 milhões de anos. Em um oceano turvo de algas, esponjas e cnidários. Este é o cenário evolucionário privilegiado por Godfrey-Smith: a passagem do Ediacarano ao Cambriano.

A chamada Revolução do Cambriano é importante devido às diversas alterações na morfologia e no comportamento multi-celulares. E à explosão das primeiras formas animais. Os organismos saem do isolamento e estabelecem relações entre si, criam sentidos externos e aberturas à percepção do exterior. Desenvolvem a visão. Surgem os primeiros órgãos e sistemas preênseis (captura). Desta period também são as primeiras evidências de bilateralidade, evento central para os futuros vertebrados, incluindo os humanos.

Podemos nos perguntar: qual a vantagem do estudo dos polvos? Dentre todos os seres vivos actuais, os cefalópodes seriam aqueles com sistema nervoso central de origem mais remota. E que pertencem a linhas evolutivas mais distintas dos vertebrados e dos humanos. Por isso, seriam também os seres que mais se aproximam do que poderíamos definir como uma inteligência alienígena. Compreendê-los é compreendermos tudo que poderíamos ter sido não fomos, pelos caminhos da evolução. E tudo o que somos e desconhecemos.

Para acessar as mentes desses seres e ampliar o conceito de consciência, Godfrey-Smith parte de uma tese de William James (1842-1910): a consciência precisa ser concebida como um continuum do universo. A perspectiva é biológica e evolucionária e também cosmológica. Não há intervalos ou saltos na natureza. Tudo que existe no universo real deveio de formas primitivas que traziam em si os germes dessa transformação. Por isso, não pode haver distinção radical entre a mente humana e a de outros seres.

Essa postura gradualista noz conduz a uma visão não-essencialista e não-mecanicista da consciência, centralizada no cérebro. O objectivo da obra é duplo. Pretende analisar a condição especial que o polvo estabelece com a evolução da mente como um todo, abordando o problema em abrangência (diferentes tipos de animais) e profundidade (éons e sucessivas eras da vida).

Haveria um horizonte mais vasto do que a consciência: a experiência subjectiva. Todos os agentes sencientes teriam algum grau de experiência subjectiva. Esta não decorre da intencionalidade e da reflexividade. Não demanda que os animais saibam aquilo que são, como imaginamos em nosso sono antropocêntrico. E como se o humano soubesse exactamente aquilo que é. A experiência subjectiva decorre de replicações de comandos entre o sentir e o agir.

Todos os seres vivos agem. E, em diferentes graus, todos os seres vivos sentem. As acções de um organismo em relação ao meio e aos outros organismos precisa ser copiada para que as acções futuras desse organismo obtenham êxito. E para que ele sua espécie sobrevivam. Isso se chama sinalização. Mas e quando os organismos conseguem não apenas copiar, mas incorporar esses sinais trocados com o meio? Temos o mecanismo de internalização.

Os seres vivos passaram por dois grandes momentos de internalização dessas relações sinais-meios. O primeiro foi a transição dos organismos unicelulares para multi-celulares. As percepções e sinalizações entre organismos diferentes adquirirem aqui um novo estatuto. Passam a construir sinalizações e percepções dentro de um mesmo organismo. Esse percurso evolucionário se torna mais complexo com o desenvolvimento dos sistemas nervosos, onde essas sinalizações internas aumentam suas interconexões. O segundo é a internalização da linguagem: os limites dos organismos não se expandem, mas estabelecem-se novos trajectos dentro deles.

Como ocorre a internalização? Por meio de cópias eferentes, exaferentes e referentes. A primeira é o meio pelo qual os organismos memorizam o que as acções, suas e alheias, produzem em seus sentires. A alteração de padrões dos sentires pode reorientar as acções e vice-versa. A segunda consiste nas percepções das distinções entre acções alheias e próprias, e em como elas implicam na sobrevivência, do indivíduo e da espécie. A terceira se baseia em como esses registos podem reorientar os mecanismos das acções futuras. São sinais emitidos pelo sujeito para que possa se preservar a si mesmo no futuro. Signos do eu presente endereçados ao eu futuro e que visam à sobrevivência.

Quais os graus de distinção entre a senciência (sensibilidade à dor) e a consciência? Quais os diversos modos e regimes de senciência? Quais as diversas modulações das consciências dentro de uma mesma espécie? E as variações entre as espécie? À medida que produzem internalização todos os agentes são conscientes? Se entendermos que a alma também é movimento (anima), todos os agentes são mentes, como querem os defensores do pampsiquismo? Todas as mentes seriam consciências? Complexidade pressupõe pensamento? Pensamento pressupõe linguagem? Linguagem pressupõe discurso? Mas que tipo de linguagem? E o que é um discurso? Essa são questões analisadas ou latentes neste magistral trabalho de Godfrey-Smith.

O ensinamento ultimate é simples: paciência e humildade. Afinal, as consciências emergiram desse Éden primordial aquoso e anónimo ao longo de um percurso evolucionário de 1 bilião de anos de eferências, sinalizações, internalizações. A linguagem humana tem provavelmente apenas five hundred mil anos. É um evento prematuro demais para ser avaliado de modo definitivo levando em conta todas as perspectivas, humanas e não-humanas, dessa odisseia da vida.

Livro publicado em Portugal:

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SINOPSE:

Embora os mamíferos e as aves sejam considerados as criaturas mais inteligentes do planeta, tem-se twister claro nos últimos tempos que de um ramo mais distante da árvore da vida também brotou uma inteligência remarkable: os cefalópodes, entre os quais se destacam os polvos, além das lulas e dos chocos. Em cativeiro, os polvos já são conhecidos por identificarem individualmente os seus tratadores, atacarem tanques de água vizinhos para arranjarem alimento, apagarem lâmpadas elétricas com jatos de água, entupirem escoadouros e fazerem fugas audaciosas.

Como é que um animal tão dotado se desenvolveu ao longo de uma linha evolucionária que é tão radicalmente distante da nossa? E que significado tem o facto de a evolução ter criado as mentes não uma vez mas, pelo menos, duas? O polvo é o mais próximo que temos de um ser alienígena inteligente. E o que podemos aprender com ele?

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